7 de mar de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?


(Danny Boyle, 2008) = 0

Há uma cena em Milionário que talvez explique o sucesso internacional do filme. O herói, ainda menino de rua, ganha cem dólares dum casal americano que sentiu pena dele. É um ataque a relação paternalista que o primeiro mundo freqüentemente mantém com o terceiro. O Oscar ironicamente apenas confirma esse paternalismo ao premiar com oito estatuetas um “exótico” filme da Índia. Filme falado em inglês, dirigido por um inglês, porque um autêntico filme indiano jamais seria premiado.

Bom, tenho fé que esse filme bobo será esquecido em dois anos. O único prêmio que ainda me incomoda é de Fotografia. Espero que Milionário não influencie o visual dos filmes daqui pra frente, porque sua fotografia é feia demais. Suja, com cores apagadas e saturada por luzes fortes ofuscando uma câmera que treme sem motivo. Esse filme foi feito pra ser visto por um público com Déficit de Atenção. Ou viciado em televisão, já que o frenesi de luzes e sons só se acalma nas cenas de game show. São os poucos momentos em que o diretor Boyle mostra interesse no que está na frente da câmera.

Outra coisa que me incomoda é a reação da crítica no Brasil e no mundo, bem decepcionante dum modo geral. O filme tem muitos e importantes detratores (Inácio Araújo, Marcelo Miranda, etc). Porém, um bocado de gente se rendeu a essa extravagância de mau gosto. E isso me fez pensar num texto do Luiz Carlos Oliveira que li dias atrás.

Trata-se do polêmico
A Publicidade Venceu. Este ensaio argumenta que a crítica de cinema não consegue (ou não quer) detectar e combater o cinema publicitário. Segundo ele, “a crítica está menos preocupada em ver uma obra que a obrigue a pensar a forma (...) do que em ter o que discutir. Quanto menos um filme sacudir sua posição de analista de discurso (...), mais longe vai a discussão (nunca mais fundo)”.

Bom, Milionário deu muito assunto pra críticos e comentadores culturais medíocres discutirem: Índia, TV, crianças de rua, globalização, novela das oito, a lista vai longe. Mas discurso coerente? Cinema? Só se for cinema publicitário. Onde, ainda segundo o Luiz, o que mais importa é a idéia (eu diria “sacada”, uma gíria publicitária).

Nessa tipo de cinema, nas palavras dele, “a idéia sobrevive à perda de vínculo com o pensamento e com o olhar”. E “essa idéia é sempre rasa, sempre retrógrada, não tem como ser de outro jeito”. Ou seja, cinema mesmo – câmera, fotografia, atores, personagens, uma visão de mundo – é secundário.

Pra mim, a definição perfeita pra Milionário. Boyle não se importa com a Índia, Mumbai, contexto histórico, nem com seus personagens (estúpidos e desinteressantes). É tudo desculpa pra vender uma embalagem pop, exótica, frenética e barulhenta dum país que ele sequer se esforça em entender.

Que uma bobagem dessas faça sucesso é normal. Todo ano surge um fenômeno que se revela uma fraude. Mas que só poucos reajam é revoltante.


AVISO:

Este blog por enquanto funcionará como uma coluna semanal, sendo atualizado toda sexta-feira. Contudo, devido a problemas técnicos (computadores são pouco confiáveis) a primeira coluna, Oscar 2009, só foi publicada no sábado. Infelizmente, pelo mesmo motivo, a segunda coluna também só será postada hoje - mas será postada, garanto. No futuro, espero diminuir a
freqüência desses atrasos.

E agora vocês já sabem, toda sexta-feira (ou quase...) esperem um texto novo aqui. Não percam! Conto com seus comentários. Abraços.